Home SEGURANÇA PÚBLICA A CRISE QUE TRANSBORDA: O ANO EM QUE A SEGURANÇA PÚBLICA DE MINAS EXPÔS SUAS FRAQUEZAS

A CRISE QUE TRANSBORDA: O ANO EM QUE A SEGURANÇA PÚBLICA DE MINAS EXPÔS SUAS FRAQUEZAS

Colapso no presídio feminino de BH é apenas o episódio mais recente de uma sequência que revela o enfraquecimento do sistema prisional mineiro

por Marketing AMAFMG

Em Belo Horizonte, a queda de parte da estrutura da Penitenciária Feminina Estevão Pinto e a interdição de diversas celas acenderam o sinal mais estridente de alerta sobre um problema que não começou agora. O episódio, que resultou em superlotação agravada, tensões internas e relatos de conflitos constantes, não é um caso isolado — e sim a ponta mais visível de um ano marcado por falhas estruturais, episódios críticos e improvisações que se repetiram por todo o sistema prisional de Minas Gerais.

Ao longo dos últimos meses, o governo mineiro e a Secretaria de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) se viram obrigados a reagir a situações que se multiplicaram com frequência incomum: desabamentos, interdições emergenciais, rebeliões pontuais, falta de agentes, atrasos em obras e colapsos hidráulicos e elétricos em unidades antigas. Cada ocorrência foi tratada como um incidente pontual. Mas o acúmulo revela um cenário mais preocupante: o sistema está exaurido e opera muito acima de sua capacidade física, humana e administrativa.

O ano começou com alerta — e ele nunca parou
No início do ano, unidades do Triângulo Mineiro e do Norte de Minas enfrentaram interrupções totais em suas rotinas por falhas elétricas e estruturais que deixaram galerias inteiras sem ventilação, iluminação ou acesso regular a água. Em algumas delas, detentos foram temporariamente deslocados para alas improvisadas, medida emergencial que expôs a completa falta de planejamento para lidar com ocorrências previsíveis em prédios envelhecidos.

Pouco depois, outra crise: agentes penitenciários denunciaram o déficit de pessoal e o aumento da pressão diária nas unidades de segurança máxima. Turnos reduzidos levaram à ampliação das escalas, o que provocou afastamentos, licenças médicas e um ciclo de sobrecarga que se retroalimentou ao longo do ano. A combinação entre menos agentes e mais detentos criou o ambiente perfeito para episódios de tensão.

Em meados do ano, o aviso mais grave veio de uma penitenciária da Região Metropolitana, onde uma briga generalizada obrigou a direção a isolar setores inteiros. À época, fontes internas apontavam para um problema que hoje se confirma sem que ninguém mais consiga negar: superlotação fora de controle, celas que abrigavam mais do triplo da capacidade e deterioração física acelerada.

Nada disso foi tratado como prioridade. A resposta mais frequente do governo foi a de que “a situação está sob controle”, mesmo quando o controle se resumia a medidas paliativas.

As rachaduras — no concreto e na gestão
Nos bastidores da segurança pública, já se comentava há meses que a pressão sobre o sistema prisional era insustentável. Não por acaso: prédios erguidos há décadas sofreram reformas superficiais, enquanto obras anunciadas como solução definitiva atrasaram, foram parcialmente executadas ou simplesmente não cumpriram o cronograma.

O resultado era previsível. Ainda assim, o desabamento que atingiu o anexo do presídio feminino de BH causou surpresa no discurso oficial. A narrativa institucional enfatizou a ausência de feridos e a pronta interdição das celas atingidas, mas ignorou a pergunta central: como um setor inteiro de uma unidade prisional desaba sem que antes haja sinais estruturais detectáveis?

A resposta implícita está na soma dos fatores que marcaram o ano: manutenção insuficiente, sobrecarga permanente, falta de investimento adequado e, principalmente, a cultura de ignorar sinais de desgaste até que eles se tornem inadiáveis.

O efeito dominó que ninguém assume
Após o desabamento no Estevão Pinto, dezenas de detentas foram redistribuídas para celas que já não comportavam a lotação original. O que era um problema grave transformou-se em uma equação impossível: mulheres de regimes distintos dividindo espaços apertados, tensão crescente, brigas recorrentes, denúncias internas e relatos de noites inteiras sem que fosse possível dormir.

Oficialmente, nada disso existe. A posição da Sejusp tem sido negar qualquer irregularidade, reforçar a normalidade operacional e afirmar que não há mistura de perfis de detentas ou colapso interno. Entretanto, o próprio estado confirmou que parte da unidade ficou interditada por tempo indeterminado — e isso, por si só, já basta para explicar o caos que se instalou.

A redistribuição emergencial não é um plano de gestão. É uma admissão silenciosa de que todas as demais alternativas estão esgotadas.

Um sistema que implodiu antes do concreto
O caso atual é simbólico porque reúne todos os elementos que marcaram o ano:

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Estrutura física deteriorada

Superlotação crescente

Falta de agentes e equipes reduzidas

Unidades improvisadas como solução temporária

Respostas oficiais padronizadas e evasivas

Crises repetidas tratadas como episódios isolados

O desabamento apenas materializou, na forma mais literal possível, aquilo que especialistas e agentes internos já diziam: o sistema prisional mineiro está ruindo.

O que o governo evita admitir
A gestão estadual buscou, ao longo do ano, transmitir a imagem de que investe, moderniza e organiza o sistema de segurança. Mas os fatos mostraram o contrário. A realidade das penitenciárias escancarou que a política de segurança pública de Minas não conseguiu evitar o sucateamento gradual, não preveniu crises e tampouco ofereceu respostas estruturais.

O ano termina com:

unidades interditadas,

alas desativadas por risco de colapso,

agentes exaustos,

obras inacabadas,

tensões internas em alta,

denúncias que se acumulam,

e uma sequência de incidentes que, reunidos, revelam uma fotografia clara: o estado perdeu o controle administrativo muito antes de perder o controle físico.

O Estevão Pinto não é um acidente — é o sintoma final
O caos atual no presídio feminino de BH não é “mais um episódio”. É a manifestação mais evidente de um sistema que passou o ano inteiro acumulando rachaduras — algumas visíveis, outras institucionais — até que a ruptura se tornasse literal.

O governo pode continuar tentando isolar o problema dentro de comunicados oficiais, mas a realidade não cabe mais em notas curtas. Ela está exposta no concreto que cede, nas detentas realocadas às pressas, nos agentes sobrecarregados, no improviso que virou regra e nas crises que se repetiram de janeiro a dezembro.

O desabamento foi apenas a última peça de um quebra-cabeça que Minas Gerais já não consegue esconder: a segurança pública do estado enfrenta uma crise silenciosa, profunda e estrutural.

E, neste momento, o sistema não parece ter mais espaço — nem físico, nem político — para suportar o próximo episódio.

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