O secretário de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais, Leônidas Oliveira, pediu exoneração do cargo neste domingo (14). Oficialmente, a justificativa apresentada pelo governo é que a saída ocorre por “motivos pessoais”. A adjunta da pasta, Josiane de Souza, assume interinamente.
Mas por trás do comunicado, surgem perguntas inevitáveis: teria sido realmente uma decisão pessoal, ou a exoneração é resultado de meses de desgaste, polêmicas e isolamento político dentro do próprio governo?
Uma gestão sob tensão constante
Leônidas estava à frente da secretaria desde 2020, um dos secretários mais longevos da administração Zema. Durante esse período, acumulou tanto avanços administrativos — como a descentralização de recursos e o fortalecimento de programas culturais em municípios do interior — quanto episódios que expuseram fragilidades em sua condução e na articulação política da pasta.
Nos últimos meses, sua atuação esteve marcada por conflitos públicos e reações negativas do setor cultural e do próprio governo. Em junho, durante sessão na Assembleia Legislativa, criticou abertamente a possível federalização ou privatização de empresas estratégicas, como Cemig e Codemge, classificando-as como “simbólicas” para Minas Gerais. A declaração contrariou o discurso oficial do governo e provocou reação direta do vice-governador, Mateus Simões.
Pouco tempo depois, veio à tona que imóveis de grande importância cultural — incluindo o Palácio das Artes e o Automóvel Clube — haviam sido incluídos na lista de bens do Estado oferecidos à União em negociações do Programa de Pleno Pagamento de Dívidas (Propag) sem que Leônidas tivesse sido consultado. A situação expôs uma falha de comunicação interna e questionamentos sobre sua influência real dentro do governo.
Outro episódio que contribuiu para desgastar sua posição foi a tentativa de transferir a gestão da Orquestra Filarmônica e da Sala Minas Gerais para a Fiemg/SESI. A proposta gerou forte reação da classe artística e do setor cultural, obrigando a secretaria a recuar. O incidente reforçou a percepção de isolamento político e dificuldade de articulação do secretário com atores estratégicos.
Veja também:
Detento com histórico desde 2006 foge de presídio em Ribeirão das Neves
Mulheres são flagradas tentando entrar em presídio com drogas e celulares escondidos nas partes íntimas
Conquistas oficiais ou narrativa de despedida?
Na carta de exoneração, Leônidas ressaltou realizações como a descentralização de recursos, o fortalecimento da economia criativa e a manutenção de políticas públicas durante a pandemia. São feitos que, no papel, reforçam a imagem de um gestor ativo.
No entanto, a narrativa oficial não explica como os episódios de desgaste, os atritos com o governo e as críticas do setor cultural impactaram efetivamente sua decisão de deixar o cargo. Ao final, permanece uma incógnita: foram apenas motivos pessoais ou a soma de tensões e falhas políticas que tornou sua permanência insustentável?
Perguntas que permanecem no ar
A exoneração deixa questões abertas e inquietantes:
– Até que ponto a falta de articulação sobre questões estratégicas, como a gestão de imóveis culturais e a proposta da Fiemg, contribuiu para a saída de Leônidas?
– A repercussão negativa de suas falas sobre a federalização de estatais teria acelerado sua decisão?
– Existe pressão interna no governo para rearranjo do secretariado que não foi comunicada oficialmente?
– E, sobretudo, qual será o impacto real para a cultura mineira de uma transição abrupta em uma pasta estratégica e sensível?
O que se observa, portanto, é que por trás do eufemismo “motivos pessoais” há uma história de tensão, atritos públicos e fragilidades na gestão, elementos que precisam ser acompanhados de perto à medida que a secretaria passa a ter novo comando, ainda que temporário. Enquanto o governo apresenta a saída como escolha individual, os fatos acumulados sugerem que a exoneração pode ser mais do que uma decisão pessoal — é também um indicativo de fragilidades políticas e administrativas que colocam em xeque o futuro da Cultura e Turismo em Minas.
